Carta ao Futuro em tempos de pandemia

Querido futuro,

Ultimamente tenho pensado excessivamente em ti. Às vezes sorrio, outras choro. A minha vida mudou drasticamente. Perdi o rumo, sinto-me fraca e insuficiente. Dá-me uma pista, diz-me se me devo sentir assim. Tu és os cinco minutos que veem a seguir, o dia de amanhã, o ano seguinte. És sempre o a seguir e o daqui a bocado. Tranquiliza-me, diz-me como me sentir. Talvez te deva explicar como me sinto mais objetiva e especificamente, para que percebas porque quero que me envies uma mensagem, seja ela qual for, do que será o futuro.

Nos dias de hoje, sinto-me vazia e sem esperança. Acordo todos os dias e todos os dias me confronto com esta realidade crua e fria, que só mesmo uma pandemia podia fazer existir. Desloco-me para a escola e sou obrigada a estar longe dos meus amigos, colegas e professores, os quais não via desde o fim da escola, no início do verão. Verão esse triste e solitário, sem muitas idas à praia, sem aquele mês em casa dos avós e sem as noites de festa do pijama entre primos e amigos. É suposto eu ter vontade de estudar? É suposto me sentir encorajada a lutar enquanto tudo o que me rodeia se desmorona?

Dentro deste contexto, outro aspeto que também me deixa triste é a ausência de eventos. Tenho tantas saudades da emoção que eram aqueles dias antes de começar o festival de verão, a alegria que o “sim” da mãe e do pai me davam e, sem dúvida, o festival em si. Tantas saudades de ir ao estádio apoiar o clube que conquistou e conquista o meu coração, de gritar toda a emoção que sentia (que tanto podia resultar em olhares constrangedores como numa nova amizade). Outras tantas saudades de ir ver um filme ao cinema, daqueles momentos hilariantes de riso demasiado alto ou de acidentes com o balde das pipocas. Tudo isto dava-me vida e, sem isto, perdi o êxtase que dava cor a tudo o resto. Sinto-me sozinha num mundo que vive afastado. Sorrio para as pessoas quando estas nem o meu sorriso conseguem ver. Grito golo atrás de um ecrã, sem vida. Escrevo sem a animação do costume, já que tudo me foi tirado. Não posso fazer trabalhos de grupo, não posso estar perto dos meus colegas, não posso caminhar livremente na escola. Não posso entrar na loja assim que chego à entrada. Todas as mesas onde consumo e todas as cadeiras onde me sento são limpas assim que me levanto. O que é a vida se nada aproveitamos dela?

Como se não bastasse, a minha irmã testou positivo à covid-19. Estou a temer por ela e pela minha própria saúde, porque estive em casa dela a jantar. Percebes o medo que sinto? Este medo por algo que não vejo, não controlo e não prevejo? É uma agonia terrível! Dizem-me que não devia ter estado com a minha irmã. Isso faz algum sentido? É a minha irmã!!! Sem ela, a minha melhor amiga, eu não consigo lidar com os problemas. Sem ela sentir-me-ia absolutamente sozinha.

Quero terminar a relembrar-te do meu apelo. Diz-me alguma coisa, antes que enlouqueça. Preciso de esperança, de acreditar que ficarei bem. Preciso de força e de certeza, algo que apenas tu me podes dar.

Obrigada por leres até ao fim. Aguardo impacientemente uma resposta.

Anastácia

POR INÊS MARTINS, 12.º C

 

Contextualização: Devido à pandemia, todos estamos fragilizados e tememos tudo o que com a mesma esteja relacionado. Em vez de escrever um daqueles textos aborrecidos e teóricos sobre a pandemia, optei por uma forma diferente de fazer chegar a mensagem. Sendo assim, criei uma personagem, a Anastácia, que escreve uma carta para o futuro a pedir que lhe dê esperança e alguma informação. A Anastácia provoca um sentimento de compreensão, porque quem lê as suas cartas identifica-se e compreende-a.  Mais tarde, o futuro irá responder-lhe…

 

Tags :